— Ralph Waldo Emerson
— Peter Bright in Google’s dropping H.264 from Chrome a step backward for openness
Mozilla, Google e a ideologia seletiva
Então, seguindo os passos da Mozilla, o(a) Google decidiu deixar de suportar o codec H.264 como uma forma de defender e estimular os padrões abertos e a internet livre.
[Um detalhe interessante a observar é que o Android utiliza o H.264 (que possui aceleração via hardware, ao contrário do WebM, o que ajuda e economizar bateria). Aguardamos para ver se o Google vai retirá-lo do sistema.]
Sim, o H.264 é um software fechado, que cobra licença de uso. Um fato interessante é que, nem Google, nem Mozilla, compram essas licenças. Se você usa Windows ou Mac OS X, já possui o codec licenciado pela Microsoft ou Apple. Essas empresas pagaram para ter o codec em seus sistemas operacionais. Ou seja, sob um aspecto (muito importante), Google e Mozilla estão tirando de você a opção de utilizar algo já disponível no seu sistema operacional.
Até aí, ainda vai: o software é deles e eles fazem o que quiserem (algo que os Apple-haters não aceitam como argumento quando a coisa é “do outro lado”, mas tudo bem). Se você quiser utilizar o H.264 que já possui, vá de Safari ou Internet Explorer e fica tudo lindo.
O que realmente me incomoda é o uso do discurso ideológico falso como forma de ganhar uma legião de seguidores. Nesse caso em especial, o Google é especialista nisso. Uma empresa como qualquer outra, tentando gerar lucros e crescer, mas com um discurso ideológico com apelo especial entre geeks e profissionais de tecnologia em geral. Um discurso, infelizmente, bem raso.
Quanto à tecnologia, minha ideologia é a “funciona, resolve e é bom”. Se o produto funciona, resolve meu problema é tem alta qualidade, eu uso. Pode ser livre, fechado, semi-aberto, côncavo ou convexo. Foda-se, não importa.
Uma coisa que admiro na Apple (que também apronta das suas, é claro) é a posição clara e aberta que ela tem: “sim, somos uma empresa que desenvolve sistemas e plataformas fechados e acreditamos que assim funciona melhor. Quer usar Apple, está aqui o produto. Não quer? Existem N alternativas. Use uma.”
Mas o discurso do Google realmente me incomoda. Já gostei bastante da empresa e do significado de “novos ares” que ela já representou na tecnologia. Mas uma atitude como essa mostra uma seletividade de ideologia que é inaceitável numa empresa que quer posar de “salvadora da web livre”: vamos abandonar o proprietário H.264, mas vamos continuar com outras plataformas proprietárias, como o Flash, da Adobe. Pior: eles deixarão de suportar algo que provavelmente já está instalado na sua máquina, mas continuarão distribuindo o Flash (proprietário OMGBBQ!!111!) junto com o Chrome. Entendeu o lance da abertura? Não? Nem eu.
Sabe qual a resposta de Mozilla e Google quando confrontadas sobre isso? Que abandonar o Flash, uma plataforma já antiga e com muitos usuários, significaria grande risco de perda de usuários, que optariam por software com suporte à essa plataforma.
Leia-se: minha ideologia vai apenas até onde começa a mexer no meu bolso. A web deve ser livre na medida em que eu ainda faça muita grana com isso. Passou daí, eu tiro o meu da reta.
A ironia suprema disso tudo é que a plataforma Flash suporta o H.264 como codec. Ou seja, ele vai continuar sendo o mais utilizado, só que encapsulado em Flash. Legal, não? Uma decisão que vai impulsionar outra tecnologia proprietária.
Mas, o buraco é mais embaixo: o codec que o Google está “empurrando” como substituto é o WebM. Fazem parte do consórcio que desenvolve esse codec a fundação Mozilla e… a Adobe. Ela provavelmente passará a suportá-lo no Flash e pronto: um codec aberto dentro de uma plataforma proprietária e não se fala mais nisso. Contanto que o H.264, muito utilizado pela Apple em seus sistemas operacionais (e que é um grande trunfo na área de mobile), saia da jogada, a ideologia deles estará satisfeita.
E, realmente, não há problema em fazer isso. Não é uma manobra ilegal. Apenas fale a verdade e diga que, por motivos de estratégia comercial, estão adotando um novo padrão. Pronto, sem problemas. Mas esse discursinho semi-comunista de liberdade e abertura só cola com quem está muito alienado. O problema não é a estratégia (embora o WebM ainda seja inferior ao H.264) e sim a justificativa.
Francamente, ideologia seletiva é igual a hipocrisia. Principalmente se você é uma empresa que prega isso mas junta-se à operadoras de telefonia na luta contra a neutralidade de rede, rouba dados de redes sem fio, não proteje a privacidade dos dados de seus usuários ou transforma uma decisão de negócios numa luta política simbólica para conseguir simpatizantes.
O que a divisão de games da Microsoft tem em comum com a Apple?
Em resumo, é umas das poucas divisões da Microsoft (talvez a única) que entrega valor. Sem promessas, sem atrasos e decepções (não sempre, mas quase sempre). O modus operandi dela é bem parecido com o da Apple no tocante à lançamento de produtos.
Ao contrário das outras divisões da Microsoft que, em geral, começam a prometer algum produto antes de realmente tê-lo (possivelmente porque algum concorrente já tem e precisam acalmar os investidores) e, em geral, acabam decepcionando ao não entregar ou então entregar algo feito “nas coxas”. O último bom exemplo disso é a tablet Slate, anunciado na CES do ano passado (debaixo de rumores da tablet da Apple) e… anunciado na CES desse ano novamente. Zune, Kin, Bob, Windows Vista… a lista é grande.
Já a divisão de games, na maioria das vezes, não fica fazendo alarde antecipado. Os caras chegam e mostram um produto pronto (ou quase lá, como no caso do Kinect), já com bom direcionamento em várias áreas, como marketing e estratégia de vendas. Mostram, entregam e vendem.
Não é por acaso que o XBox e todo seu “ecossistema” são grandes sucessos - os maiores da Microsoft em muito tempo na visão de muitos, inclusive na minha.
Quer um indício? Muita gente que acha tudo que a empresa faz um lixo completo (incluindo muitos usuários fiéis da Apple) adora o XBox e não troca por nenhum outro console.
Isso mostra outra coisa que eles fazem diferente do restante da empresa: aprender com os erros. A primeira geração do XBox foi uma gambiarra lançada às pressas após múltiplos adiamentos do projeto “DirectX Box” (olha aí de onde veio o nome!). O console era problemático e fraco, mas teve bons títulos graças à força comercial da Microsoft (incluindo aí a compra da Bungie e lançamento de Halo). Os caras aprenderam muito e o XBox 360 passou a ser um competidor respeitável para o Playstation 3, lançado um pouco depois.
Essa parte lembra #FAILs enormes da Apple, como o G4 Cube e o Newton, com os quais ela aprendeu e, tem tentativas posteriores, acertou no alvo.
Entregar valor ao invés de promessas e estar atento às lições do passado para aprimorar suas decisões são princípios de extremo valor para qualquer empresa.
Será que o governo é o único grande culpado pelos preços altos de produtos importados?
Disclaimer: o bobão aqui publicou o post sem querer, ainda não finalizado. Por isso, quem leu antes do dia 5/Jan vai perceber diferenças no conteúdo ao ler após essa data. A essência e os argumentos são os mesmos.
Ou: Por que eu e você temos tanta culpa quanto?
Uma praga que me irrita, principalmente quando pessoas do meu círculo social caem vítimas, é o que chamo de “pensamento preguiçoso”. As pessoas chegam em respostas fáceis para coisas complexas, onde geralmente o buraco é bem mais embaixo. São induzidas por interesses alheios de fornecer um bode expiatório e emburrecer o senso analítico. Isso acontece em várias áreas e nesse artigo “pincelarei” uma.
Bom, precisamos começar falado sobre duas coisas importantes:
1) Como todo bom povo latino-americano, temos a cultura do governo-pai. Esperamos tudo do governo e, consequentemente, atribuímos ao governo a culpa de toda merda que acontece;
2) Coisas importadas são mais caras em todo lugar, com raras exceções. O problema é que, como país exportador de commodities e importador de tecnologia, damos o azar de ter que importar coisas que já são caras fora daqui, antes das taxas e custos de transporte e intermediários. Por exemplo, se pesquisar pelos preços de comida e bebida brasileira nos EUA, vai ver que são muito mais altos que localmente (mais de 8x em muitos casos). O “problema” é que são coisas baratas, ao contrário de um computador de mil dólares que ao chegar aqui, além dos impostos, ainda ganha mais peso pela conversão cambial.
Esse segundo fator se dá pelo fato de que todo governo tenta proteger sua indústria interna da concorrência externa. É uma forma de nivelar os preços (ou, dependendo do produto e da força da indústria nacional, deixar o preço do importado muito mais alto) para estimular a produção nacional. Muitos argumentam que em casos em que praticamente inexiste uma indústria nacional (video games, por exemplo) isso não deveria ser adotado. Em geral, a justificativa é preservar o “potencial” para essa indústria, mesmo que ela ainda não exista. É algo adotado em praticamente todo lugar do mundo e acho bem difícil que seja modificado. Se é justo ou não, é outra história.
Você pode xingar e resmungar mas, em lugar algum do mundo, produtos de alta qualidade e processos de produção que exigem tecnologia de ponta, quando importados, vão ter preços no nível dos produtos nacionais (salvo em casos extremos de escassez, onde o governo cortará impostos para abastecer o mercado).
Além disso, o governo tem lá sua razão em cobrar alíquotas elevadas de produtos caros: as pessoas com condição financeira vão acabar comprando-os de qualquer modo. Então, por que não ganhar com isso? Não difere nada do funcionamento de uma empresa: não se pode ficar no vermelho por muito tempo. Se você estivesse “do outro lado”, iria achar totalmente normal. Por isso que coisas como alimentos básicos possuem alíquotas bem mais baixas que computadores e video games. É o chamado “Princípio da Seletividade”. É assim que funciona a economia dos países capitalistas. Você deu azar de ser um geek nascido num país subdesenvolvido e importador de tecnologia? Deal with it.
Por aqui é comum que as empresas aproveitem isso e joguem a culpa toda em cima do governo. Porém, há muito mais por trás disso tudo. Entre vários fatores (incluindo, sim, os impostos), o que mais pesa é o status.
Como em todo país com um abismo social gritante, há muita grana concentrada em uma pequena parte da população. Enquanto 60% das pessoas sequer possuem uma residência legalizada (sejam moradores de ruas, de favelas ou outras construções ilegais), uma pequena parte tem acesso a um dos dez maiores mercados de artigos de luxo do planeta. É de se estranhar que roupas Giorgio Armani e canetas de brilhantes da Montblanc vendam mais aqui do que em qualquer outro lugar do mundo, não? Com impostos altos e tudo.
O que acontece é que, para nos diferenciarmos da realidade vivida pela maior parte da população do país, a forma mais eficiente e recompensadora ao ego é consumir. Não digo isso apontando dedos pois eu e todos meus amigos de classe média fazemos isso. Não por maldade e talvez nem pensando sobre o impacto disso, mas por cultura social mesmo.
O interessante é notar que isso não é exclusividade das classes mais altas. Quem aí não conhece casos de gente de classes mais baixas que deixa de fazer coisas importantes pra comprar um carro popular em milhões de prestações?
Aliás, a indústria automotiva aqui é um grande exemplo de compra por status. Carro no Brasil deixou de ser meio de transporte e passou a ser símbolo de emancipação. A indústria, é claro, aproveita. Pra que cobrar 20 mil reais por um carro se posso cobrar 40 mil e vender a mesma quantidade ou mais, já que as pessoas vão se desdobrar em financiamentos pra poder ostentar um?
Adoro quando vejo as montadoras dando desculpa de impostos, quando na verdade elas estão tendo isenções contínuas de IPI e enganando os trouxas que ficam xingando o governo. Faça o seguinte: pegue o preço de um carro nos EUA, que contém 20% de imposto, retire essas taxas, aplique a taxa brasileira de 40% (sem a isenção de IPI) e converta a moeda. Surpresa: o valor não vai chegar nem perto do que se paga aqui. E eu garanto que o salário dos empregados da empresa nos EUA é maior do que os salários daqui (faça isso com modelos que são fabricados aqui e lá, claro, como vários da Toyota e da Ford).
Te enganaram direitinho, não?
Para referência: a média das taxas de importação, em 2000, era de 13,7% (contra mais de 30% em 1990). Claro que há um grande desvio padrão, com taxas indo de 0 a mais de 100%, dependendo do produto, mas é apenas para termos uma ideia. Além disso, dependendo do produto, ainda podem incidir ICMS, IPI e PIS (quanto mais supérfluo o produto, mais se paga, como em bebidas alcoólicas e jogos).
Vejamos mais alguns casos interessantes abaixo.
A loja de roupas Zara (da Espanha) é como uma C&A na Europa. Vende roupas e acessórios “da moda” a preços acessíveis, sem furar os olhos dos clientes. Ao vir para o Brasil (e América Latina em geral), decidiu se posicionar como uma “marca cara”, de elite. Isso foi uma ação deliberada da direção da empresa. No Brasil a Zara é vista como uma marca de roupas de “gente rica”. Ela cobra muito a mais do que seria obrigada pelas taxas, afinal vai vender bastante de qualquer maneira: sua marca simboliza status e porque não capitalizar sobre isso com margens bem maiores?
Calças jeans que aqui custam R$ 700 contra R$ 100 lá fora. Não, amiguinho, elas não pagam 700% de impostos, não seja ingênuo. É que fulanito vai pagar 700 mangos só pra falar que tem uma calça “de marca”, entendeu? E os tênis? Será que eles pagam 900% de impostos? Advinha? Se eu posso vender caro, como empresa que visa lucro, vou maximizar minha margem sem dó nem piedade. Enquanto tiver gente comprando, continuo enfiando a faca.
Não é que em países com boa distribuição de renda as pessoas não comprem por status. Elas compram itens de luxo para ter status. Aqui, além dos itens de luxo, coisas normais como uma calça ou um carro popular também são vistas assim, já que grande parte das pessoas não pode comprá-las pelos preços que são cobrados.
É por esses fatores e por várias outras diferenças econômicas que não faz o menor sentido fazer comparações do tipo “nos EUA você trabalha 5 horas pra comprar um celular e, no Brasil, precisa trabalhar 5 dias para comprar o mesmo”. É óbvio que vai ser muito mais caro aqui: é importado, vem de um país com moeda mais forte e tem alta demanda entre pessoas com boas condições econômicas. Mesmo que os impostos para importados aqui fossem exatamente os mesmos dos EUA, continuaria sendo caro (e você teria que trabalhar 4 dias e meio pra comprar um). É o tipo de comparação que atrai audiência e todo mundo adora retuitar, mas é totalmente vazia de significado.
Quem também leva uma bolada nessa história toda são as redes de lojas. Nesse post do Gizmodo Brasil comentando sobre o preço do MacBook no Brasil ser o mais alto entre os países com venda oficial, o autor acerta na mosca ao falar sobre isso. As margens das redes por aqui (média 25%) são muito maiores do que em países como os EUA (média 6%), onde a concorrência entre lojas como Best Buy, Target e afins deixa as margens mais baixas.
Um problema muito mais grave do que as alíquotas em si, são os impostos em cascata. Esse sim nos quebram as pernas e são praticamente exclusividade brasileira. Combine-os ao fator status e as margens obscenas que os revendedores obtém e, boom, temos os preços altos.
Reclamar de impostos é um hábito do ser humano. Não tem um que não reclame, seja em países pobres ou ricos. É claro que a aplicação dos mesmos faz muita diferença e por aqui temos muito desperdício (ineficiência da máquina pública, corrupção alta etc), mas simplesmente não gostamos de ser obrigados a pagar ao governo uma parte do que ganhamos. Nosso problema (e o problema de quase todos os países no mundo), não são as alíquotas (na média) e sim a má aplicação dos recursos.
Moral da história: somos um povo muito consumista (copiamos a cultura americana sempre, nisso inclusive) e que possui uma cultura de cobrar pouco retorno, seja do governo, seja das empresas. O governo usa mal os impostos e nós deixamos para lá. As lojas e fabricantes cobram altíssimas margens de lucro e também não ligamos muito. Aceitamos para parecermos menos pobres e mais “iguais” aos nossos amigos do hemisfério Norte.
Quer fazer algo sobre isso? Aqui vão algumas sugestões:
- Reveja seus hábitos de consumo;
- Faça parte de iniciativas como o Freecycle;
- Seja ativo na luta contra impostos exagerados e o desperdício dos mesmos. Ficar de mimimi no Twitter não conta; ex: apóie movimentos como o Jogo Justo; sei lá, crie um projeto de lei e colha assinaturas. Ficar choramingando não resolve.
É isso. Da próxima vez que for reclamar sobre como o governo é malvado e as empresas boazinhas não podem te vender produtos baratos, lembre-se de que, como em todo sistema inventado por seres humanos, você pode estar sendo induzido à conclusões fáceis e ilusórias, recheadas de segundas intenções. Nossos queridos políticos tem sim uma parte da culpa, mas tem muita gente tão ou mais culpada querendo tirar o ** da reta.
(Pra quem estiver interessado, na revista Superinteressante de Dezembro, número 285, há uma matéria falando justamente sobre o peso do status nos preços das mercadorias importadas por aqui)
PS: já vi gente achando que tô defendendo o governo, que sou petista, comunista ou sei lá o que. Note que, sim, eu acho as taxas elevadas. Também acho que isso é normal pra muitos produtos (os supérfluos) e temos que saber que não é só aqui que isso acontece (ex: caninha 51 nos EUA custa 23 dólares e aqui, quando muito, custa 5 reais ou 2,9 dólares). A merda maior é que o imposto aqui é muito mal aplicado e isso sim é um grande problema. Mas não é o foco desse artigo.
Update: o Dudu Pontes, da loja virtual greenvana.com, tem vários contrapontos aos meus argumentos aqui. Vale checar nossa conversa via Twitter: http://is.gd/ka7F0