Oceano Azul vs Oceano Vermelho: Android vs iOS

Bom, essa discussão de Android vs iPhone muitas vezes enche o saco pois desperta paixões e opiniões inflamadas. Resolvi escrever minhas opiniões por duas razões:

1) Num post dá pra argumentar e explicar muito mais, enquanto que em algo como Twitter acaba parecendo que você está na pura trollação (por falta de espaço pra argumentos);

2) Para passar esse link sempre que perguntarem minha opinião, assim não preciso ficar me repetindo. 

Não tenho intenção de ser um “entendido”, visionário ou guru… é apenas minha opinião de desenvolvedor e usuário. Não sou um pundit, expert ou coisa do tipo. ;)

A minha opinião é: as plataformas não são competidoras diretas, não possuem o mesmo público-alvo nem os mesmos objetivos. Agora, vamos à argumentação.

Disclaimer: eu sou um dos que acredita que simplesmente não existe “visão neutra”. Todos somos afetados por nossas experiências, contextos e círculos sociais quando formulamos nossas opiniões. Aqui tentarei ser o mais balanceado possível - mas sei que não serei totalmente neutro. Me dêem um desconto. ;)

Pra começar é preciso dizer que são duas ótimas plataformas. O iOS é muito mais polido e tem algumas vantagens por estar há mais tempo no mercado, coisas que o Android vai conquistar aos poucos. Para entender essa diferença no “polimento” dos sistemas, precisamos entender uma diferença fundamental sobre a filosofia e cultura de Google e Apple. Por sorte, enquanto escrevia esse post, John Gruber publicou um em que resume muito bem isso tudo:

The differences between the iOS App Store and Android Market are a microcosm of the differences between Apple and Google. Apple is a retailer, a purveyor of well-crafted goods that people will line up to purchase. Google is an advertising company that builds popular services that command large audiences.

There’s a difference in culture — from the platform creators, from the developers writing software for the two platforms, and from what the users of these devices expect. For iOS, it’s about emotional appeal — art, design, the ineffable.

(destaque dado por mim)

Esse ponto é fundamental. É por isso que o Google nunca vai lançar algo com o nível de acabamento e refinamento em design industrial que a Apple faz (um exemplo: o Android sequer conta com fontes de alta qualidade, como Helvetica - os desenvolvedores precisam embedá-las nas aplicações). Simplesmente não faz parte da cultura da empresa e, principalmente, não é necessário para seus objetivos (não estou dizendo se isso é bom ou ruim, apenas listando fatores). Na verdade, no ramo de computadores, tablets e smartphones, a Apple é praticamente a única empresa a ter ênfase nesses aspectos. Mas por quê?

Bom, é aí que entra o “misterioso” título do tópico. A estratégia do Oceano Azul. Segundo essa estratégia, a empresa não deve entrar num mercado já repleto de predadores: o Oceano Vermelho, metáfora para o mercado “cheio de sangue” resultante do excesso de competidores e baixos níveis de fidelidade e margens de lucro. Ao contrário, ela deve seguir algumas regras para que possa criar um mercado praticamente exclusivo. As regras são:

1. DO NOT compete in existing market space. INSTEAD you should create uncontested market space. 

2. DO NOT beat the competition. INSTEAD you should make the competition irrelevant. 

3. DO NOT exploit existing demand. INSTEAD you should create and capture new demand. 

4. DO NOT make the value/cost trade-off. INSTEAD you should break the value/cost trade-off. 

5. DO NOT align the whole system of a company’s activities with its strategic choice of differentiation or low cost. INSTEAD you should align the whole system of a company’s activities in pursuit of both differentiation and low cost.

Familiar, não? Praticamente descreve o modo como a Apple opera.

Vejo o mercado de smartphones caminhando na mesma direção do mercado de computadores pessoais. Hoje, no mercado de computadores, a Apple tem um mercado praticamente exclusivo, populado por pessoas que se dispõe a gastar mais por mais qualidade, beleza e exclusividade. O restante do mercado é uma briga feroz entre dezenas de fabricantes em que as margens de lucro são cada vez menores e a diferenciação entre produtos é mínima ou inexistente. É por esse motivo que a Apple, mesmo com um market share de unidades vendidas considerado baixo, tem o maior market share em lucro.

Em smartphones já estamos vendo a mesma coisa: o Android é utilizado por dezenas de fabricantes e operadoras, novos aparelhos são lançados todos os dias e os fabricantes, que vivem de vender aparelhos, fazem de tudo para enfiar o mais novo modelo goela abaixo dos consumidores, adotando medidas tão absurdas quanto impedir o update do sistema operacional inventando requisitos mínimos inexistentes. (isso também é válido para o novo Windows Phone 7)

Aqui temos um ponto interessante. A diferença nos modelos de negócio da Apple e do Google cria algumas vantagens e algumas desvantagens. A principal desvantagem de ambas é o fato de que o usuário nunca tem liberdade plena (ao contrário do que afirmam os adeptos do Android):

- Apple: apenas aplicações que passam pelo crivo da empresa entram em sua App Store e somente as aplicações disponíveis nessa loja podem ser instalados em gadgets com o iOS. As restrições são bem simples: não é permitido conteúdo pornográfico ou discriminatório e uso de APIs privadas. Mas, ainda assim, são restrições (e a parte da discriminação pode ser bem subjetiva).

- Android: os fabricantes e operadoras podem encher o telefone de software pré-instalado e impossível de ser removido (chamado pela comunidade de “crapware” porque, em geral, são uma porcaria). Além disso, é prática muito comum que essas empresas impeçam a atualização da versão do Android nos aparelhos para forçar a venda de novos modelos.

[aliás, só eu estranho o fato de que, num mundo em que ainda existe trabalho escravo, pessoas fiquem associando “liberdade” ao fato de poder instalar qualquer porcaria num celular?]

Dois problemas decorrentes do modelo Apple são: a impossibilidade da utilização de software que altere características do sistema (coisa que nerds adoram mesmo que nunca utilizem, apenas pela possibilidade) e que é possível no Android e a falta de concorrência, já que somente a Apple pode ter uma loja de aplicativos e lucrar com isso.

Já o principal problema do modelo Android é que, devido ao crapware e à falta de atualizações, é comum que aparelhos semi-novos tornem-se lentos e o usuário seja forçado a comprar um novo aparelho. É comum ver tópicos e artigos em sites com “manhas” para fazer limpezas e deixar telefones Android mais rápidos. Isso me lembra muito dos aplicativos otimizadores para Windows.

Outro grande problema na plataforma Android é a fragmentação. Com tantos dispositivos com níveis de capacidade dos mais diversos (além de diversas versões do sistema), é praticamente impossível garantir que um aplicativo vai rodar em todos. Isso é muito do que se vê na discussão PC vs Consoles na área de games: é certo que todo jogo que sai para PS3 vai rodar da mesma maneira em todos os consoles PS3. Já para PC, com tantas configurações e capacidades de hardware distintas, é simplesmente impossível dar garantias. A Rovio, desenvolvedora do jogo Andry Birds, sentiu isso na pele recentemente. Eu mesmo já vi telefones Android rodando o jogo perfeitamente e outros em que era simplesmente impossível jogar.

O sales pitch do novo Nexus S é um atestado desses problemas. São citadas como as maiores vantagens de se comprar esse aparelho: “no crapware” e “freedom to update the OS”. Não dá pra negar esses problemas. (ou seja, se quiser um Android, a dica é ir com um Nexus)

Ambas plataformas possuem soluções para alguns desses incômodos, que consistem em “hackear” o sistema para eliminar algumas restrições (no caso do iOS é o jailbreak, no caso do Android é o processo conhecido como “rootar o sistema”). São processos simples para os usuários familiarizados com tecnologia, mas algo que os “meros mortais” devem evitar.

Podemos ainda entrar em outras comparações em nível mais baixo, por exemplo: o sistema de notificações do Android é melhor que o do iOS; as aplicações para serviços do Google são superiores no Android; o iOS é muito superior como plataforma de games; Android suporta a função hotspot wi-fi enquanto o iOS suporta apenas tethering; a App Store é muito superior ao Android Market etc.

Mas, meu ponto não é esse. Meu ponto é: essas plataformas não competem entre si. Primeiro, pelos objetivos diferentes das empresas: a Apple procura criar uma plataforma completa (software, hardware, serviços) com apelo para usuários comuns pela facilidade de uso; o Google procura criar plataformas de software que se proliferem rapidamente e dêem retorno através da exploração do mercado de anúncios com apelo para usuários tech-savvy e acesso a seus serviços online.

Algo que mostra isso são as aplicações mais populares em cada plataforma. No iOS, em geral, são jogos (tanto de grandes estúdios como EA quanto de desenvolvedores independentes como a Rovio), aplicativos de produtividade e organização, aplicativos sociais e clientes de serviços online. No Android, em geral, são task managers, aplicativos para modificar home screen/teclado, antivírus e outros brinquedos geeks. A diferença no nível de qualidade e polimento entre as aplicações das duas plataformas é, hoje, abismal (mas espero que isso mude e o Android ganhe mais aplicações de alta qualidade).

Eu, como geek, acho muito interessante poder ver os processos rodando, o quanto de CPU cada um usa, o quanto de memória ocupam, poder mudar presets de memória, ver gráficos bonitinhos de uso de hardware… mas são apenas brinquedos, nada que seja realmente fundamental e utilizado sempre. Definitivamente, citar esse tipo de possibilidade como vantagem não faz sentido. Como usuário de iPhone, se me der vontade de explorar esse tipo de coisa, é muito fácil fazer um jailbreak e instalar aplicações que fazem tudo isso e muito mais. Porém isso não é realidade para usuários leigos.

[Dica: pra quem procura algo desse tipo no iOS sem fazer jailbreak, existem algumas apps bem legais, incluindo uma chamada iStat que mosta tanto os processos e estatísticas do dispositivo quanto de outras máquinas através de um daemon instalado nelas (ótimo para monitoramento).]

É por esses fatores que, a menos que hajam grandes mudanças de estratégia, dificilmente veremos as melhores aplicações do Android no iOS e as melhores aplicações do iOS no Android. São culturas, objetivos, estratégias e públicos diferentes.

Na minha visão, o Android terá (ou já tem) o papel do Windows no mercado de computadores pessoais: é a “carne de vaca”, usada por praticamente todos os fabricantes, sem diferenciadores relevantes nem muita “personalidade” (a diferença é a qualidade, pois o Android é um ótimo sistema, já o Windows…). O iOS seguirá o mesmo caminho do OS X: um sistema muito robusto (como o Android), mas com uma experiência muito mais consistente, aplicações de maior qualidade (tanto em função quanto em polidez) e um forte fator de exclusividade (como é hoje com Macs vs PCs).

É claro, para muitos essas “vantagens” dos produtos da Apple não fazem diferença. O mesmo vale para qualquer outro produto. Para muita gente a “beleza” do iOS é um fator insignificante. Para outro bom número de pessoas, a tal “abertura” do Android é completamente irrelevante. Daí termos públicos muito distintos e as discussões entre eles serem irrelevantes. No final, tudo acaba no “agree to disagree”. ;)

Daí não podermos fazer uma comparação direta. O Google quer massificar aparelhos que forneçam um meio para que os usuários consumam seus anúncios. A Apple quer criar uma cadeia de consumo dentro de seus produtos, em todas as frentes (com o iAd ele passará a ganhar com propagandas também, um by-product muito rentável). Não há comparação direta porque cada um leva a estratégias diferentes: a plataforma Google sempre terá mais abertura e opções de fabricantes; a plataforma Apple sempre terá uma cadeia de maior valor agregado. É assim com computadores pessoais e iPods e parece estar caminhando para ser assim com smartphones e tablets. Aliás, o Android foi a “salvação da lavoura” para muitos fabricantes como a Motorola e a Samsung: se o Google adotasse o modelo da Apple, coitadinhos deles…

Mais um fato interessante sobre a diferença de públicos: vários estúdios que desenvolvem para iOS dizem não ter interesse no Android pelo fato de que o usuário padrão da plataforma simplesmente não compra software. Muitos, por ideologia, vão utilizar versões livres e gratuitas inferiores ao invés de comprar a alternativa “fechada” superior. Daí muitas grandes aplicações que surgem no iOS migrarem para o Android em versões sem custo, mas suportadas por propaganda. É a pedida perfeita para o Google. Daí, na minha humilde opinião, as plataformas da empresa propositadamente apelarem às ideologias desse público - enquanto, lá dentro, eles desenvolvem o próximo Android em seus MacBooks e iMacs com o OS X. ;)

Assim a Apple “compete” num Oceano Azul e o Android está inserido na competição entre os fabricantes de smartphones no Oceano Vermelho (agora acompanhado pelo Windows Phone). Para o Google não faz muita diferença: o lucro da empresa não vem diretamente da venda de aparelhos, então tanto faz se as margens de lucro são altas ou baixas. O importante é que sejam vendidos muitos smartphones que consumam seus anúncios - daí é que vem seu lucro. O Google não vai investir para ter uma cadeia de hardware e software refinada e diferenciada. Não é necessário. Aqui alguns exemplos disso: Fed Up With Android Market, Angry Birds Flies to Carrier BillingAndroid Marketplace Inconsistencies (destaque para o último parágrafo).

Enquanto isso a Microsoft tenta entrar no mercado, onde vai disputar a atenção dos fabricantes e consumidores com o Android, deixando esses fabricantes numa posição privilegiada de poder fazer exigências e ditar as regras, já que nem Google nem Microsoft fabricam e distribuem os handsets. A verdadeira briga é Android vs Windows Phone.

Entrando nos méritos da minha escolha: vejo o iPhone como um appliance e os telefones com Android como pequenos computadores, com mais liberdade pra fuçar, modificar (e estragar) o sistema. Eu gosto muito de appliances e entre ficar nas mãos da Apple ou nas mãos de uma duplinha do naipe Vivo+Motorola (ou qualquer outra combinação operadora+fabricante), prefiro a primeira opção, principalmente pela oferta muito superior de software. Como diz a Wired no artigo que linkei sobre fragmentação:

Android is thought of by the phone-makers as little more than a free way to make their hardware boxes actually do something. It may be a great OS, but that doesn’t mean the phone makers don’t hate you.

Quem acredita que os fabricantes e operadoras realmente se importam com o Android como plataforma e o seu futuro? Se a Microsoft (ou outra empresa) oferecer algo que seja mais vantajoso, bye bye… (torço para que isso não aconteça).

Pós-Disclaimer: gosto muito do Google como provedor de serviços (coisas como GMail, Google Maps etc) e gosto muito da Apple como provedora de produtos. É o que cada empresa faz de melhor.